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TRANSIÇÃO NUTRICIONAL NO BRASIL

 

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A transição nutricional é um processo que inclui mudanças cíclicas importantes no perfil nutricional da população. Estas mudanças estão determinadas por uma série de variações econômicas, demográficas, ambientais e socioculturais que se relacionam entre si e que trazem como conseqüência modificações no padrão e tipo de alimentação e atividade ou educação física (MONTEIRO, 2000).

Os países desenvolvidos entraram em transição antes que os países em desenvolvimento; mas se presume que o impacto é maior nestes últimos porque as mudanças produzidas na composição do corpo são mais rápidas, a coexistência de sobrepeso e desnutrição numa mesma família é um fenômeno não visto previamente nos países desenvolvidos, as populações dos países em desenvolvimento são biologicamente mais vulneráveis, e os governos não estão preparados para enfrentar estas mudanças.

Estudos em outros países em desenvolvimento identificaram que os determinantes distais, ou problemas da pesquisa, mais importantes são os socioeconômicos, como o crescimento econômico e o incremento no nível de urbanização; no entanto, existem determinantes culturais como os determinados pela migração e transculturação, e institucionais como o manejo do Estado nas políticas públicas nutricionais, igualmente importantes e pouco estudados, tudo isto enraizado e determinado pela globalização à qual estamos expostos (SANTOS, 2002).

No Brasil, apesar da diminuição significativa, de 54%, existe uma alta prevalência de desnutrição infantil e se está incrementando a prevalência de sobrepeso e obesidade; no entanto, tais tendências sem diferenciais nas áreas urbano e rural ou nos diferentes estratos socioeconômicos pelo que é importante fazer uma análise independente das tendências a estes níveis.

Desde o ponto de vista nutricional, os países latinoamericanos evoluíram para diferentes estágios de transição expressando-se em diferenças na prevalência de transtornos nutricionais. A informação analisada demonstra um incremento do excesso de peso não somente no Brasil mas em todos os grupos e países, particularmente em mulheres adultas que passam ou passaram pelo processo de transição nutricional. Igualmente preocupante é a situação de crianças nas quais conquanto, não de maneira tão marcada, também aumentou. Coerentemente com o anterior há uma tendência a diminuir as prevalências de déficit de peso e estatura.

O anterior não seria reflexo de um fator de maneira isolada, senão de um conjunto deles, destacando-se:

- Um aumento da ingestão calórica “aparente” que se reflete em todas as análises de disponibilidade de alimentos no país.

- Um aumento da proporção de lipídios no total do consumo energético.

- Um incremento generalizado do sedentarismo pelo uso de tecnologias que o favorecem.

Uma diminuição da insegurança alimentar devido a uma queda do índice da população que vive em condições de pobreza e especialmente de pobreza extrema e indigência, ainda que as desigualdades sociais persistem em muitos lugares, especialmente nos Estados do Norte, Nordeste e Centro-Oeste.

O aumento do excesso de peso pode ser um dos resultados da globalização, provavelmente pela importação cada vez maior de alimentos do mundo industrializado e a queda nos preços. Desta maneira a maior disponibilidade de alimentos não tradicionais provocaram uma mudança nos padrões de consumo, demonstrando-se uma maior oferta de gorduras e óleos a baixo custo que determinaram um incremento de sua ingestão (MONTEIRO, 2001).

Em conseqüência, a alimentação tradicional baseada em cereais e verduras mudou para o consumo de alimentos ricos em gorduras, açúcar e produtos processados, sendo especificamente este processo a definição de transição nutricional (FRENK, 1991). Por sua vez, a maior disponibilidade de alimentos a preços mais baixos permitiu que grupos de menores níveis econômicos tenham um maior acesso a alimentos com alto conteúdo energético. Assim, a disposição para mudar a dieta e a capacidade de adotar hábitos alimentares saudáveis estão profundamente conectadas ao acesso econômico naqueles que vivem em condições de restrição. Uma relação inversa entre densidade energética dos alimentos e o custo energético (definido como o custo monetário por unidade de energia) observou-se onde a dieta baseada em cereais refinados, açúcar e lipídios é mais exeqüível do que a baseada no consumo de carnes magras, pescado, frutas e verduras (OLINTO, 1993). Isto concorda com o aumento da disponibilidade de calorias no país a partir de gordura evidenciado entre 1991 e 1998.

Também o excesso de peso pode estar determinado por uma menor atividade física dado a adoção de estilos de vida mais sedentários num meio mais urbanizado e que promove o uso de tecnologia que limita tal atividade. Esta é dependente do tipo de ocupação, atividades domésticas e recreativas, como o esporte e o exercício. Atualmente as crianças e jovens diminuíram seu acesso a atividades desportivas e exercício físico associados com um incremento no acesso a televisão e videogames que incrementam em grande parte sua suscetibilidade ao incremento de peso (MONTEIRO, 2001).

A vida em condições de pobreza também foi descrita como um fator predisponente de obesidade ainda que a relação pobreza e obesidade difere de uma região a outra e pode estar mediada em parte pelo baixo custo de alimentos altamente energéticos, mas por outro lado, pelas preferências individuais por alimentos que são culturalmente considerados mais saborosos (PRENTEL, 2000).

Reportou-se associação de insegurança de alimentos e excesso de peso em mulheres, encontrando-se correlação positiva dependendo da severidade da insegurança de alimentos (esta é uma ótima relação de pesquisa para uma dissertação de mestrado), provavelmente também associada ao padrão de atividade. Não só o rendimento dos países em termos de produto bruto per capita se relaciona com a prevalência de obesidade senão que também sua distribuição social. O pertencimento a grupos de nível socioeconômico mais baixos em países de baixo rendimento per capita confere um fator protetor contra obesidade mas um fator de risco para a doença em economias com rendimento médio alto (YUNES, 2002).

Assim, o Brasil, juntamente com o Chile e México mostraram incrementos na prevalência de obesidade em mulheres dando conta que aqueles países com maior desenvolvimento mas com desigualdades sociais mais marcados adotam estilos de vida inapropriados que conduzem a transtornos nutricionais e as vezes de maneira mais drástica do que em países de menor desenvolvimento econômico mas mais homogêneos (MS, 2000).

Em contraparte, a redução na prevalência de BPN, déficit ponderal e de crescimento também obedece às mudanças e condições atuais dos países em termos demográficos e socioeconômicos. A baixa fecundidade se vincula à diminuição do BPN dado que seria reflexo de melhores condições maternas como seu estado nutricional e espaços intergenésicos. Assim se entende que o BPN tenha menor prevalência em no Brasil que tem a menor TGF e que teve um desenvolvimento econômico importante nestes últimos anos enquanto há maior prevalência em países com maior fecundidade e que apresentaram menor desenvolvimento (MONTEIRO, 2002).

O déficit ponderal e de crescimento em população infantil do país pode ter diminuído, como o aumento de peso dos adultos, podem ter se dado como um produto da melhoria das condições socioeconômicas como a redução da pobreza e indigência, o maior poder aquisitivo da população e a consolidação de programas dirigidos à população mais vulnerável. Nos países que não seguiram esta tendência se poderia explicar pelas desigualdades e inequidades e por limitações no acesso a serviços e oportunidades sociais (MONTEIRO, 2000).

Este é um trabalho no qual se selecionaram alguns indicadores relacionados com o estado nutricional e seus fatores condicionantes, podendo haver muitos mais. Não obstante, permite visualizar uma situação que pode ser analisada desde diferentes ângulos e perspectivas expondo a ampla gama de fatores relacionados com o estado nutricional.

CONDUTAS E FATORES DE RISCO DAS TRANSIÇÕES NUTRICIONAIS

A transição nutricional é um processo que inclui mudanças cíclicas importantes no perfil nutricional das populações humanas. Tais mudanças estão determinados por modificações nos padrões de alimentação e atividade física produzidos principalmente por uma série de mudanças econômicas, demográficas (que renderiam bons temas para monografias de Geografia), ambientais e socioculturais que se relacionam entre si. (MONTEIRO, 2000)

Popkin identificou 5 estágios da transição nutricional, de acordo com as características dietéticas, de atividade física, socioeconômicas e demográfica e com efeitos próprios no perfil nutricional e na morbimortalidade da população

Coleta de alimentos: a dieta do período dos caçadores é rica em carboidratos, fibra e ferro, e baixa em gorduras saturadas; com humanos relativamente altos; mas com esperança de vida curta, possivelmente pela alta taxa de infecções.

Fome: a dieta se torna menos variada por escassez extrema de alimentos e está associada a um estresse nutricional representado por uma redução no tamanho.

Remissão da fome: a dieta se caracteriza por um incremento no consumo de frutas e vegetais, proteínas animais, e uma redução no consumo de farinhas.

Doenças degenerativas: uma dieta rica em colesterol, açúcares e outros carboidratos refinados, bem como baixa em ácidos graxos poliinsaturados e fibra, acompanhada de um estilo de vida sedentário, o qual resulta num incremento na obesidade e contribui para a instalação de doenças crônico­degenerativas descritas no último estágio da transição epidemiológica descrita por Popkin (POPKIN, 1992).

Mudanças comportamentais: os padrões de consumo se parecem mais aos do período de recolha de alimentos que aos do período de doenças degenerativas. A dieta se caracteriza por um elevado consumo de frutas e vegetais, carboidratos de cadeia longa, e um baixo consumo de alimentos refinados, carnes e lácteos.

Dois processos ocorrem simultaneamente ou precedem à transição nutricional, a transição demográfica e a transição epidemiológica. Na transição demográfica as taxas altas de fecundidade e mortalidade são substituídas por taxas mais baixas, e na transição epidemiológica as doenças infectocontagiosas são substituídas pelas crônicas e degenerativas. Resulta impossível separar uma da outra por estar emdiretamente relacionadas e ser mutuamente dependentes (MONTEIRO, 2002).

O estágio de transição nutricional em que se encontra um país está associado ao desenvolvimento econômico deste. Algumas populações sofrem de fome, outras a estão superando, outras estão entrando no estágio de doenças degenerativas, e só algumas se encontram no estágio de mudanças comportamentais; no entanto, diferentes subpopulações de um país podem encontrar-se em diferentes estágios, e inclusive uma mesma subpopulação pode compartilhar características de mais de um estágio, o que torna ainda mais complexo entender este fenômeno, sendo este processo altamente significativo no Brasil, principalmente por seu tamanho continental e a variabilidade regional. (IBGE, 2002)

CARACTERÍSTICAS DA TRANSIÇÃO NUTRICIONAL NO BRASIL E DEMAIS PAÍSES EM DESENVOLVIMENTO

Muitos países em desenvolvimento, incluindo o nosso país, estão experimentando um crescimento econômico que os está levando a passar do estágio de remissão da fome ao estágio de doenças degenerativas da transição nutricional, com todas as conseqüências que estas mudanças implicam (MS, 2000).

Inclusive em alguns países, e no caso do Brasil algumas regiões, como os Estados do Norte e Nordeste, pode-se encontrar ainda ambos os estágios da transição; nestes se descreveu um fenômeno onde coexiste em um mesmo país e inclusive numa mesma família sobrepeso (estágio de doenças degenerativas) com desnutrição (estágio de remissão de fome). A este fenômeno se denominou "o duplo peso de doença" devido ao significado patológico que pode apresentar cada um destes extremos na nutrição (MS, 2000)

No contexto de América Latina, o Brasil é um dos países classificados com médios rendimentos que sofreu diferentes mudanças, pelo que à luz dos indicadores encontrados se encontra na etapa de transição nutricional entre o estágio de remissão da fome para o estágio de doenças crônicas e degenerativas. A seguir, mostramos algumas características demográficas, epidemiológicas e nutricionais que corroborariam esta afirmação:

Redução das taxas de fecundidade e mortalidade:

A taxa global de fecundidade diminuiu de 6.0 entre 1970­1975 para 2.1 entre 2002­2005, com uma projeção para 1,9 para o período 2020­2025 (IBGE, 2011). A taxa bruta de mortalidade diminuiu de 6.85/1000 no período de 1990­1995 para 6.09 no período 2000­2005.

Incremento de doenças crônicas e degenerativas:

Em 1967, as doenças do sistema circulatório contribuíam com 5.4 % das mortes no Brasil, enquanto que no período entre 1994 e 1998 foram responsáveis por 16.3%

Incremento na prevalência de sobrepeso e obesidade:

A prevalência de excesso de peso em mulheres em idade fértil se incrementou de 31.1% de sobrepeso e 8.8% de obesidade no ano de 1992 a 33.7% de sobrepeso e 13.0% de obesidade no ano 2000 (IBGE, 2002)

Os determinantes diretos da transição nutricional são mudanças nos padrões alimentares e nos de atividade física; no entanto, devido à falta de informação e monitoramento destes na população brasileira, desconhece-se a magnitude da mudança e suas condicionantes. Alguns fatores econômicos como o desenvolvimento econômico do país, a crescente urbanização e um maior acesso aos alimentos poderiam estar influenciando o estilo de vida da população.

Os fatores que influem diretamente sobre os resultados das intervenções, tais como a utilização de serviços de saúde, práticas dietéticas e higiênicas, e os estilos de vida, não são fixos; mais propriamente, variam amplamente de país a país. Por exemplo, em Chade somente 10% das crianças se encontram imunizadas; na República do Kyrgyz, a cifra chega a quase 70%. (BRASIL, 2005)

Em Uganda, 70% das crianças se alimenta de leite materno, ao contrário, no Senegal o faz somente 9%. Os fatores que influem nos resultados das intervenções igualmente variam de forma ampla no interior dos países, especialmente entre grupos familiares pobres e não pobres, principalmente pelos hábitos alimentares da população, em paralelo com o acesso dietário. Em Burkina Fasso, por exemplo, a probabilidade que têm as crianças pobres, ao nascer, de ser atendidas por uma pessoa com formação médica chega a menos de um terço da que têm as crianças de famílias acomodadas. Quando sofrem de diarréia, aquelas só têm a metade da probabilidade de ser tratados com terapia oral de reidratação, e menos de um terço de probabilidade de receber uma bateria completa de imunizações durante sua infância.

A segunda etapa no entendimento da deficiência nos resultados das intervenções é medir os fatores que influem diretamente neles segundo diferentes grupos econômicos.

As folhas de ciclo de vida indicam que isto pode fazer-se utilizando pesquisas domiciliárias. As folhas indicam, assim mesmo, que pesquisas existem para avaliar os níveis e as disparidades entre os grupos. Para muitos dos fatores que influem diretamente nos resultados das intervenções em saúde materna e infantil, dispõe-se de dados decompostos por grupo econômico para 48 países, como se observa nas folhas informativas do Banco Mundial sobre SNP no âmbito da pobreza. (MOTTA, 1998)

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Publicado em 25/05/2011


 
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